A popularidade, inclusive, deve-se também ao desconhecimento de muitos condutores das obrigatoriedades que precisam arcar ao adquirirem um veículo como esse. “O problema é que muita gente está comprando ciclomotores acreditando que não é preciso emplacar, ter Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e podem andar livremente, sem capacete, até. Contudo, isso não é possível. Pelo menos, não deverá ser mais”, afirma o comandante do 1º Distrito de Polícia Rodoviária Estadual, capitão Cláudio Augusto.
Segundo ele, por enquanto será feito um trabalho de conscientização e informação à população sobre o que é preciso ter e usar para conduzir um ciclomotor. No entanto, em um futuro próximo, a intenção é começar um trabalho firme de fiscalização e até apreensão dos veículos irregulares. “Neste momento será para informação e, mais na frente, começaremos o trabalho ostensivo, de fiscalização e policiamento”, promete o capitão.
Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, assim como motos de maior potência, carros, ônibus e caminhões, os ciclomotores precisam ser registrados junto ao Detran local, estarem licenciados e só poderão ser conduzidos por pessoas habilitadas e, consequentemente, maiores de 18 anos. “Atualmente, vemos que esse veículo popularizou-se principalmente entre os jovens. Inclusive, adolescentes. Muitos pais compram esses veículos para os filhos acreditando que eles não precisam de CNH para conduzi-los, embora isso não seja realidade. Precisam sim”, reforça o capitão.
A necessidade de uma CNH e de um registro para os ciclomotores, segundo o capitão Augusto, é clara. Sem registro e o emplacamento, o veículo pode transitar acima do bem e do mal nas vias públicas. Cortar sinal, parar em cima da calçada, transitar na contramão, no acostamento, cometer qualquer infração no trânsito e estar livre do que isso pode ocasionar: multas e pontos na carteira de motorista.
A CNH, por sinal, é outra necessidade básica do condutor, porque é com ela que quem dirige o veículo mostra ter conhecimento das leis de trânsito. “Sem a carteira, como é possível saber se o condutor está ciente ou não da legislação de trânsito? E se ele não está ciente, como pode ter responsabilidade de conduzir um veículo que pode representar um risco não só para ele, mas também para os outros condutores?”, questiona o capitão.
Além disso, é necessário também aos ciclomotores o licenciamento por parte do Detran. “É preciso que esses veículos estejam aptos a rodar. Paguem impostos e contribuição. Muitos não sabem mas, por exemplo, os ciclomotores que não são licenciados tiram o direito do condutor que se envolve em acidente receber o seguro DPVAT”, explica o capitão.
Ele acrescenta ainda a questão da segurança na regularização da situação do veículo: “se o ciclomotor é roubado, não tendo registro e emplacamento, resta apenas o número do chassi como forma de identificação e isso dificulta bastante para a Polícia encontrar e recuperar o veículo. Estando todos emplacados e registrados, fica mais fácil nosso trabalho: o que transitar sem placa, será vistoriado para saber se há contra ele queixa de roubo”. Com a falta de registro, inclusive, não é nem possível saber quantos veículos como esses estão, atualmente, transitando no Estado.
Se tratando de ciclomotores, por sinal, o problema de roubo e acidentes não preocupa apenas os condutores desses veículos. A sociedade pode ser vítima de pessoas nessas “cinquentinhas”. Um caso emblemático, por exemplo, foi registrado, na última semana, por policiais militares que fazem ronda no bairro do Alecrim.
Era quarta-feira, por volta das 7h30 da manhã. A rua dos Pajeus já estava bastante movimentada por pedestres e veículos, quando uma dupla, ainda não identificada, parou em frente à loja Cleito Cell e atirou seis vezes contra Claudísio Cardozo Ferreira, 31 anos. A vítima era foragida da Justiça do Ceará e um dos bandidos mais perigosos de Fortaleza. Mesmo assim, a dupla autora do crime poderia ter sido localizada e presa, se não tivessem utilizado na fuga um veículo não registrado e que nem placa possuía: uma motoneta Traxx, uma dos ciclomotores mais populares no Estado.
“Tivemos conhecimento que eles fugiram em uma Traxx preta. Os policiais até tentaram persegui-los, mas é complicado porque em um veículo leve como esse, eles têm vantagem na fuga. Além disso, como não havia placa, fica difícil identificá-la ou se localizar o proprietário, posteriormente”, afirmou, na ocasião, o tenente da PM Márcio Lima. Estando sem placas, a única maneira de uma Traxx ser identificada é pelo número do chassi.
“Não é qualquer pessoa que sabe localizar o chassi do veículo. Além do mais, fica mais fácil para a bandidagem. Praticamente todos os dias, temos notícias de roubos praticados por bandidos em ciclomotores, e se todos tivessem placa e apenas um ou outro não possuíssem, seria mais fácil identificar. afirmou o capitão Augusto.
A cada 10 acidentes, 8 são com motos, diz Samu
Insegurança e imprudência são principais causas dos acidentes. Se a falta de registro e licenciamento dos ciclomotores está se tornando um problema de segurança pública no Estado, devido a grande quantidade de bandidos que praticam crimes auxiliados por esses veículos, para a saúde pública as “cinquentinhas” também, há muito, já estão dando trabalho. Sobretudo, devido à falta de conhecimento dos condutores e a fragilidade do veículo.
“Ciclomotores têm estruturas muito frágeis e deixam seus condutores mais expostos, até que aqueles que conduzem motos. Além disso, como muitos não possuem Carteira Nacional de Habilitação, a quantidade de infrações no trânsito e, consequentemente, acidentes provocados por ele, é muito grande”, afirma o capitão Cláudio Augusto.
Da mesma opinião, compartilha a coordenadora-geral do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu Natal), Wilma Dantas. Segundo ela, atualmente, a cada 10 acidentes de trânsito socorridos pela Samu, oito têm como acidentados pessoas que conduziam veículos de duas rodas. “Deste número, a grande maioria estava conduzindo motos pequenas, como essas ‘cinquentinhas’ ou aquelas de, até, 100 cilindradas. Quase sempre, inclusive, o acidente é provocado por uma atitude imprudente dele mesmo”, afirmou ela.
Segundo Wilma Dantas, condutores de motocicletas maiores tendem a ter mais responsabilidade na condução de seus veículos, ao passo que os dos ciclomotores nem mesmo chegam a estar habilitados. “Aqueles que conduzem motos maiores têm mais zelo pelos seus veículos. Já os que andam de ciclomotores, comumente comentem irregularidades e, em alguns casos, chegam até a recusar o atendimento médico, por receio de serem autuados por algum crime. Já foram várias as vezes que chegamos ao local de um acidente e o condutor, mesmo acidentado, fugiu ou se recusou a ir ao hospital para não ter seu veículo apreendido”, afirmou a coordenadora-geral.
A apreensão de veículos, por sinal, já está sendo feita pela PM. Todos os ciclomotores envolvidos em acidentes e que não possuem licença, nem registro ou estão sendo conduzidos por pessoas sem a CNH, são levados para o pátio do Detran e só saem de lá devidamente regularizados. “Já começamos a fazer esse trabalho, pelo menos, com aqueles que se envolveram em acidentes. Eles só saem de lá devidamente regularizados e licenciados”, afirmou o capitão Augusto.
Outro ponto que contribui para a gravidade dos acidentes envolvendo esses veículos, além do desconhecimento do Código de Trânsito Brasileiro devido a frequente falta de habilitação por parte dos condutores, é a ausência de capacete, que apesar de todas as campanhas de segurança no trânsito, ainda é percebida. “Nos locais de mais trânsito, é difícil, mas nas periferias e, sobretudo, no interior do Estado, é fácil ainda ver esse tipo de atitude. Pessoas andando sem capacete, algo que é imprescindível para a segurança de alguém que conduz um veículo”, afirmou ela.
Lojas não alertam para a necessidade da habilitação
Menos de R$ 4 mil, na maioria dos casos, e mais uma economia sem tamanho no deslocamento urbano. Aliado a isso, a promessa de ser desnecessário o registro, a licença e o porte de Carteira Nacional de Habilitação do condutor (CNH). O modo econômico que as “cinquentinhas” oferecem é o principal motivo para que muitos optem pelo veículo e abandonem o transporte coletivo.
“Nossa grande maioria de clientes são pessoas de classes mais populares, trabalhadoras, sobretudo pela economia sim. Pagar a parcela e mais os gastos com combustível é mais barato que arcar com as passagens de ônibus”, afirma a gerente de uma das concessionárias de ciclomotores de Natal – nome preservado. Segundo ela, algumas “cinquentinhas” chegam a fazer 60 quilômetros com apenas um litro de combustível e seu valor de compra pode ser dividido em, até, 24 meses.
Para o capitão Cláudio Augusto, comandante do 1º Distrito de Polícia Rodoviária Estadual, em muitas concessionárias da capital do Estado não é nem tratada a necessidade de registro e de habilitação para veículo e condutor, respectivamente. “Por isso, estamos querendo fazer um trabalho de informação para a população para, em seguida, exigir o registro e a CNH. Muita gente compra esses ciclomotores desinformado do que é preciso ter para conduzir um. Saem da loja apenas com a nota fiscal e mais nada”, afirma ele.
Segundo o capitão, a função de fiscalização era inicialmente da Prefeitura do Natal, mas como ela já se pronunciou que não tem como fazer esse trabalho, a responsabilidade ficou para o Estado, através do Detran e da PM, com o Comando de Polícia Rodoviária Estadual (CPRE).
Questionada sobre a veracidade da declaração do capitão, a gerente ouvida pela TRIBUNA DO NORTE desconsidera a afirmação. “Nosso trabalho é atender o cliente e não tratar do registro de veículos. O ciclomotor sai daqui só com a nota fiscal como qualquer outro veículo sai da concessionária somente com a nota fiscal”, afirmou ela.
Fonte: Tribuna do Norte